Muita gente passa dos 50 anos com a sensação de que ficou mais difícil ter amizades próximas, e quase sempre se sente culpado. A pessoa conclui que ficou mais fechada, menos paciente, menos sociável ou "ruim de manter contato", como se a capacidade de criar vínculos tivesse diminuído com a idade.
No entanto, uma parte importante da psicologia e da sociologia aponta que o que muda de verdade com a idade é a estrutura do dia a dia que antes ajudava as amizades a acontecerem. Recentemente, um tio solteiro veio me visitar em casa e, quando fomos a um restaurante, ele me contou a seguinte situação:
"Tenho mais tempo livre do que tive nos últimos trinta anos e, de alguma forma, tenho menos amigos do que em qualquer outro momento da minha vida. Pensei que finalmente teria tempo para as pessoas. Acontece que as pessoas não estão mais aqui". Eu, claro, fiquei tocado com seu desabafo, e juntos refletimos sobre o afastamento dos amigos na vida adulta.
Na escola e no começo da vida adulta, as amizades são favorecidas pelo fato de você ver as mesmas pessoas com frequência, por muito tempo, e isso cria laços quase sem perceber. Depois dos 50, muitas dessas situações desaparecem, já que os filhos saem de casa, colegas se aposentam, as pessoas do trabalho e da vizinhança se mudam, e a rotina que antes unia as pessoas deixa de existir. Não é que a vontade de ter amigos sumiu, mas o cenário que criava amizade por repetição virou outro.
Um estudo de 1950, feito por Leon Festinger, Stanley Schachter e Kurt Back, analisou como amizades se formavam entre estudantes casados que viviam em residências no MIT, e a conclusão foi de que a proximidade influenciava mais do que traços de personalidade. Pessoas que moravam perto de áreas de circulação tinham mais amigos do que quem ficava em áreas mais isoladas. O que determinava muita coisa era onde você estava, e não a habilidade social.
Com o tempo, pesquisadores reforçaram essa ideia. A socióloga Rebecca Adams observou que as pessoas conseguem fazer amizades com facilidade em fases como faculdade e início de carreira, mas ficam raras conforme a vida vai ficando mais organizada em horários, compromissos e obrigações.
Existe um princípio bem conhecido na psicologia que se chama 'o efeito da mera exposição', estudado por Robert Zajonc, que mostra que ver alguém com frequência torna o contato mais natural, e essa naturalidade ajuda a conexão entre uma amizade ou relação acontecer. Acontece que, depois dos 50 anos, a vida deixa de ser um cumprimento de agenda com as mesmas pessoas todos os dias.
É comum que as pessoas se afastem de seus amigos de juventude e se vejam ocasionalmente, quando finalmente conseguem tirar a promessa de "vamos marcar" do papel. Além disso, se o trabalho era o grande lugar de convivência, a aposentadoria costuma cortar a principal fonte de repetição com outras pessoas, e muitas amizades perdem o sentido, mesmo que ninguém tenha feito algo errado.
Pesquisas de psicólogos como William Chopik e Robin Edelstein sugerem que a queda na quantidade e na qualidade das amizades na meia-idade está ligada a mudanças de estrutura social, como aposentadoria, mudança de residência e filhos saindo de casa, mais do que a mudanças de personalidade. Em outras palavras, muitas pessoas continuam capazes de fazer amizade, mas perdem o ambiente que tornava esse processo natural.
E esse efeito costuma criar um problema: quando as amizades diminuem, a pessoa passa a concentrar quase toda a conexão emocional em um parceiro ou na família. Isso aumenta pressão dentro de casa, porque um relacionamento só não foi feito para carregar todas as necessidades sociais de alguém.
O conselho mais comum é "entre num clube, faça voluntariado, faça um curso"... mas é importante ressaltar que um encontro semanal pode criar proximidade e repetição, mas não garante uma convivência espontânea e nem tempo suficiente para a amizade virar íntima. Você pode passar meses encontrando pessoas legais e ainda assim continuar no nível de conhecidos.
O que tende a funcionar melhor, segundo a psicologia, são compromissos recorrentes com o mesmo grupo, porque isso cria repetição e margem para as conversas acontecerem com mais naturalidade. Caminhadas em horário fixo, encontros simples, presença no mesmo lugar, atividades em que as pessoas ficam juntas.
O sociólogo Ray Oldenburg chamou esses espaços de "terceiros lugares", ambientes que não são casa nem trabalho, e que facilitam a convivência, dando a possibilidade de criar novas amizades.
Depois dos 50, muita gente não perde a capacidade de criar vínculo, mas perde a estrutura que fazia as amizades acontecerem com menos esforço. Entender isso muda a forma de olhar para o problema, porque tira a culpa e dá margem para entender que, muitas vezes, é a própria vida que nos coloca em posição de desconforto.